Os Dois Princípios do Psicólogo Realizado

Certamente você já leu ou viu algum vídeo sobre regras, atalhos, dicas, segredos para sucesso em alguma esfera da vida. Este breve texto, não visa falar do sucesso, mas sim da realização. Essa distinção se dá baseada em Viktor Emil Frankl, psiquiatra austríaco fundador da Logoterapia.

Para Frankl (2015) enquanto o sucesso se encontra em um plano horizontal da existência, a realização se encontra em um plano vertical. Com isso o psiquiatra austríaco queria dizer que uma vida de sucesso, por exemplo, com dinheiro, bens materiais e fundamentada na obtenção de prazer, não necessariamente será uma vida realizada, que significa sobretudo uma vida com sentido.

Então, poderia dizer que os dois princípios aqui elencados são, na minha perspectiva, nortes para um psicólogo que queira viver sua profissão com sentido. Claro que, diante da complexidade da realidade resumir uma prática profissional a três, quatro, cinco ou seis princípios pode ser reducionista, mas me arrisco a tal por acreditar que as duas atitudes abaixo são fundamentais para um psicólogo que queira atuar de forma ética, no seu sentido mais clássico, ou seja, de forma a viver com excelência sua práxis profissional.

A primeira atitude é o respeito. Entretanto, respeito aqui não é entendido como a aceitação incondicional de qualquer atitude do outro, ou o não emitir qualquer opinião contrária sob o risco de levar o rótulo de preconceituoso. O respeito da modernidade está muito mais vinculado a uma tentativa de legitimação do subjetivismo e do voluntarismo do que ao sentido profundo dessa atitude.

Entendo respeito como uma atitude ética, a primeira delas, como afirma Hildebrand (1995) “uma atitude fundamental que, por assim dizer, se pode apontar como mãe de toda virtude moral, porque é ela que, antes de mais nada, permite abeirar-se do mundo e abrir os olhos para os valores que encerra.” (p. 6). Mais a frente, o filósofo completa que o respeito é “aquela atitude receptiva que permite compreender o que há de peculiar e valioso em cada situação e cada homem” (p. 6).

Nesse sentido, respeito é a atitude de abertura ao mistério que é o outro, uma pré-condição para apreender a grandiosidade de cada pessoa, sua particularidade, não a rotulando ou encaixando em teorias que, muitas vezes, partem apenas de um aspecto da realidade, generalizando-o como um todo, o que Frankl (2011) afirma ser a ideologia.

No campo da Psicologia a falta de respeito pode se traduzir em uma tentativa de encaixar a pessoa dentro de uma determinada teoria ou diagnóstico, reduzindo a mesma, por exemplo, a sua doença. Mais do que isso, a falta de respeito pode se manifestar como soberba, onde a aproximação a pessoa é feita de forma insolente. Quantas vezes nós psicólogos não caímos no erro de acreditar que possuímos uma série de conhecimentos que nos tornam superiores, entendedores de qualquer comportamento humano e deixamos de nos abrir ao outro?

O humano sempre transcende, sempre desafia, sempre suplanta as teorias, porque o humano é um mistério, sendo o respeito a atitude que permite ao homem que se aproxima de outro semelhante não objetificá-lo ou reduzi-lo a suas categorias parciais de conhecimento. O respeito impede que roubemos do outro sua dignidade, que repousa, entre outras coisas, no fato de que cada vida humana constitui um elemento único na história desse planeta.

O segundo princípio é a admiração. Ela se aproxima do respeito, mas enquanto o primeiro pode se estabelecer sobretudo em uma esfera cognitiva, o segundo adentra a vida emocional. A admiração, de acordo com Lacroix (2006), provém da palavra latina “admirari” que significa um movimento para maravilhar-se, um “subordinar-se respeitosamente àquilo que é superior” (p. 187).

Lacroix (2006) completa mais a frente que o objeto da admiração é reconhecido por “sua riqueza não se esgotar num único olhar, mas se desvelar através de uma frequentação paciente, de uma decifração progressiva.” (p. 188). A admiração, portanto, nos mantêm fiéis na busca por compreender o mistério do outro, a, indo além de seu sintoma, adentrar na sua história, nas suas particularidades, nas suas virtudes e possibilidades de realização de valor.

A admiração sofre com uma vida emocional superficial, sem contemplação. Será que nós ainda possuímos a capacidade de nos admirarmos com o outro, será que na era da informação rápida, de milhares de contatos em um único dia por meio das redes sociais, temos a disposição interior de se debruçar e parar nosso olhar no outro que está em nossa frente?

Para nós psicólogos esses dois princípios se apresentam como chaves para uma prática repleta de sentido, porque o respeito e admiração constantemente nos levarão a viver a práxis profissional de forma autotranscendente, nos levarão a sair de nós mesmos, a nos abrirmos para a vida da outra pessoa, a desafiar as teorias e compreender que o homem, no mais profundo de si, aponta para algo muito além dele mesmo.

FRANKL, V. E. (2015). Em busca de sentido: um psicólogo no campo de
concentração (Vol. 3). Editora Sinodal.

FRANKL, V. E. (2011). A vontade de sentido: fundamentos e aplicações da
Logoterapia. São Paulo: Paulus.

LACROIX, M. (2006). O culto da emoção. Traduzido por Vera Ribeiro. Rio de
Janeiro, José Olympio.

HILDEBRAND, DV (1995) Atitudes éticas fundamentais. São Paulo:
Quadrante.

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